Kill criteria antes de começar: os 6 gatilhos objetivos de arquivamento.
Declarar os critérios de morte de um produto antes do primeiro commit é o gesto mais saudável do método. Decisão informada no começo protege contra decisão emocional no meio.
Todo produto que a Talvera Labs coloca em "construção ativa" entra acompanhado de um documento de uma página: os kill criteria específicos daquele produto, assinados pelo fundador no dia do start. O Decreto 02 do manifesto formaliza isso: arquivar um produto não é fracasso — é disciplina. O que não cumpre critério objetivo sai do portfólio na cerimônia mensal seguinte, salvo decisão escrita em contrário.
Esse texto abre os 6 critérios gerais que aplicamos a todos os produtos + a lógica de cada um. E explica por que declarar antes, em vez de decidir depois, é o movimento que protege o solo founder do vício cognitivo mais comum: manter produto vivo por apego, não por tese.
Por que critérios objetivos existem
Decisão de arquivamento é uma das mais caras emocionalmente para quem construiu. Seis meses de trabalho, conversas com early users, código escrito, noites viradas — tudo isso cria um viés enorme a favor de "continuar mais um pouco".
Sem critério declarado no início, a decisão no meio vira perguntas impossíveis de responder sozinho: "deveria continuar ou desistir?", "isso ainda tem chance?", "e se eu só ajustar um pouco?". O tempo passa, o custo cresce, e a decisão nunca é tomada formalmente. Produto vira zumbi.
Produto zumbi é pior que produto morto. Consome atenção do fundador sem gerar aprendizado nem receita.
Kill criterion declarado antes transforma a decisão emocional em cumprimento de protocolo. O fundador assinou no dia do start: "se atingir X, arquivo". Quando X acontece, não é dor — é disciplina. Ainda dói, mas dói administrável.
Os 6 critérios gerais (aplicam-se a todo produto)
Estes 6 formam o piso. Todo produto do portfólio Labs os herda automaticamente. Critérios específicos por produto (ver §4) são adicionais.
1. Validação de demanda insuficiente
Gatilho: após 20 entrevistas com público-alvo, menos de 40% expressam dor genuína e disposição a pagar.
Lógica: se em 20 conversas bem conduzidas o mercado não aparece, ele provavelmente não existe — ou o produto está resolvendo problema errado. Continuar insistindo custa muito mais que aceitar cedo.
Note que "40% com dor genuína" é uma métrica específica, não vibe. Conta quantos entrevistados descreveram o problema sem você precisar levar. Quem descreveu + disse explicitamente que pagaria por solução entra no numerador. O resto, não.
2. Canal de distribuição não identificado
Gatilho: 60 dias sem identificar canal com CAC economicamente viável.
Lógica: sem canal, não escala — mesmo se o produto é bom. Plimpoo, por exemplo, fica em validação até o canal aparecer; construção ativa só quando tiver caminho claro até o usuário. Produto sem canal é passivo, não ativo.
"Canal viável" significa CAC (custo de aquisição de cliente) que cabe no ticket médio esperado. Se CAC está em R$ 800 e ticket anual do cliente é R$ 600, a matemática não fecha — a única forma de fechar é mudar produto, mudar mercado, ou mudar modelo de preço. Se nenhuma das três resolve em 60 dias, a tese cai.
3. CAC inviável
Gatilho: CAC estimado > 3× ticket anual do cliente.
Lógica: unit economics quebrados no papel. Alguns produtos têm LTV gigante (SaaS B2B de retenção alta pode justificar CAC 5× o ticket anual), mas a maioria dos micro-SaaS opera com margem apertada e retenção média. Para o perfil Labs, 3× é o teto. Acima disso, o produto sangra caixa antes de pagar o próprio investimento.
4. Bloqueio regulatório
Gatilho: parecer jurídico formal aponta inviabilidade (ECA, LGPD, setor específico).
Lógica: produto ilegal vira passivo, não ativo. Plimpoo tem esse critério declarado com peso alto — tese envolve IA para menores de idade, intersecção ECA + LGPD + responsabilidade civil. Se o parecer jurídico vier desfavorável, depreciação é imediata, não gradual. Risco regulatório não se compensa com produto bom.
5. Capital e tempo indisponíveis
Gatilho: time atual não comporta + zero perspectiva de contratação em 6 meses.
Lógica: arquivar é melhor que manter esperança. Solo founder tem teto de capacidade — 2 produtos ativos em paralelo é o limite declarado do Decreto 01. Se um produto pede atenção maior que o fundador pode dar e a contratação de alguém dedicado não está no horizonte, manter o produto na mesa é negar a realidade física do tempo.
Esse critério é o mais duro de aceitar. Porque ele não fala sobre o mercado ou sobre o produto — fala sobre a casa. Mas é o que mais salva solo founder de burnout.
6. Janela de mercado fechada
Gatilho: competidor dominante consolidado ou mudança de contexto que elimina tese.
Lógica: forças de mercado mudaram; a tese caiu. Exemplo hipotético: Labs decide fazer produto X; Google lança feature equivalente gratuita em produto massivo 3 meses depois. A janela fechou. Insistir é obstinação, não produto.
Critérios específicos por produto
Além dos 6 gerais, cada produto recebe kill criteria específicos — calibrados pela tese. Os 5 produtos do portfólio atual têm:
- App Revenda Autos: sem 1 revenda paga em 90 dias pós-MVP → hibernação + reavaliar canal.
- Plimpoo: parecer jurídico desfavorável sobre IA-menores → depreciação imediata até mudança regulatória.
- FirmaBR: 20 entrevistas sem canal viral escalável → hibernação (tese ainda válida), não depreciação.
- IdevIA: quebra técnica > 40h de correção + zero demanda externa → depreciação.
- Personal AI Assistant: sem pedido de reativação em 6 meses (contados de 2026-04-18) → depreciação. Hibernado formalmente enquanto aguarda.
Note a diferença entre hibernação (tese vive, produto pausa — pode voltar se condição ocorrer) e depreciação (tese morre — não volta sem novo mandato). O Decreto 03 da Labs trata hibernação como estado formal com data de revisão obrigatória. Depreciação é final.
Como aplicar na prática
Kill criteria viram letra morta se não houver cerimônia recorrente que os aplique. A Labs roda cerimônia mensal toda primeira segunda-feira com pauta fixa. Um dos blocos obrigatórios é "revisão de kill criteria" — produto a produto, pergunta-se:
- Algum critério foi acionado neste mês?
- Algum critério está perto de ser acionado?
- Há sinal antecipado que justifica revisar antes do gatilho?
Se um critério foi acionado: decisão formal de transição de estado na mesma cerimônia. Se está perto: plano de ação explícito para mês seguinte. Se há sinal antecipado: discussão com registro, sem decisão precipitada.
A cerimônia é curta (30-45 min para os 5 produtos) — mas é a única instância onde a decisão de arquivar pode sair. Decisão fora da cerimônia é decisão reativa, geralmente tomada sob pressão emocional.
O custo psicológico de acionar
Mesmo com critério declarado e cerimônia bem rodada, acionar um kill criterion dói. Seis meses de trabalho indo para "depreciado" — mesmo sabendo que está certo, o emocional reclama.
Três coisas ajudam a suportar:
Primeiro: separar aprendizado de investimento. Produto arquivado deixa aprendizado técnico + aprendizado de mercado + aprendizado sobre o próprio método. Tudo isso fica. O que morreu foi a tese específica, não o tempo investido.
Segundo: registro do motivo. No momento do arquivamento, escrever 1-2 parágrafos: o que funcionou, o que não funcionou, o que a Labs aprendeu. Arquivo esse texto junto com os outros docs do produto. Seis meses depois, ler. Geralmente o fundador concorda com a decisão.
Terceiro: hibernação formal quando cabe. Se o produto tem tese ainda interessante mas as condições do momento não permitem — hibernação, não depreciação. Porta aberta para reativação quando as condições mudarem. É diferente de "desistir" — é "pausar".
O que isso produz na cultura
Casas que aplicam kill criteria disciplinados acumulam aprendizado concentrado em poucos produtos, em vez de desperdício disperso em muitos. Isso muda a velocidade de execução: com foco real em 2 produtos, cada decisão é tomada com 5× mais contexto.
E muda o próprio jeito de abrir produto novo. Quando o fundador sabe que existe rito disciplinado de arquivamento — e que o produto vai passar por ele — a tese que entra no portfólio é mais bem pensada. Ideia ruim é filtrada antes do primeiro commit, porque o fundador não quer chegar ao mês 6 e ver o critério óbvio sendo acionado.
Paradoxo útil: declarar como matar um produto é uma das melhores formas de fazer ele viver melhor.
Publicado em 2026-04-15. O método completo vem no e-book Disciplina de Portfólio para Solo Founder (biblioteca Labs).
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